amores expresos

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Um mês sem falar




O horror confesso que eu tenho dos blogs me pôs numa sinuca de bico (devidamente ironizada pelos amigos mais próximos) quando descobri que durante a minha estada em São Petersburgo também teria que escrever um. Não é que não goste; eu detesto blog. Uma saída honrosa me pareceu fazer um blog só de imagens (dia 1, dia 2 etc.), com o título: “Um mês sem falar” – o que se justificaria por estar na Rússia e não falar uma palavra de russo. O título ficou, embora eu tenha começado a falar (e muito) já no primeiro dia. Assombrado pela minha precariedade de comunicação, resolvi me adiantar aos contratempos e comprar de uma vez a passagem de trem para Moscou que só vou usar daqui a uma semana. Amigos que viajaram pela Rússia recentemente me preveniram sobre o pesadelo e o risco da iniciativa, depois de tentarem se fazer entender por atendentes que podem ser tudo menos simpáticas (um dos princípios insepultos do comunismo é o de que nunca se deve ser servil) enquanto uma fila quilométrica aguardava a vez atrás deles. Na agência oficial de venda de bilhetes no centro de Petersburgo, um prédio cujo interior de mármore é um resquício exemplar de arquitetura soviética, não há uma, mas várias filas. E você tem a liberdade de escolher esperar na que você preferir. Depois de um momento de hesitação, me dirijo ao guichê 40. A espera é o tempo de anotar num papelinho todas as palavras de que posso vir a precisar (eu gostaria de..., data, hora, janela, não-fumante, expresso etc.) tiradas do mesmo “phrasebook” cujas situações que se oferecem como exemplo admonitório ao turista rivalizam com a minha própria paranóia (coisas do tipo: “não ponha essa droga no meu bolso!”; “não adianta pedir meu passaporte, só tenho fotocópia”; “eu te dou 50 rublos”; “me deixa descer!” etc.) e cujos conselhos incluem: “nunca acompanhe nenhum policial, a menos que tenha certeza de estar sendo preso”. Me mantenho firme com o papelinho na manga do casaco para quando chegar a minha vez e tiver de perguntar aterrorizado à atendente de uniforme, com a insígnia da companhia ferroviária bordada em letras douradas no peito, se ela fala inglês. A resposta esperada me faz tirar o papelinho da manga e começar a fazer o que eu não queria, e não só para não ter que escrever este blog: falar. Falo tudo o que copiei do “phrasebook”, diante de uma platéia de velhinhas e velhinhos espantados, na fila. Quando termino, exausto, a atendente precisa se controlar para não perder a carranca e começar a rir. Um dos velhinhos me dá os parabéns e os outros só faltam aplaudir. Depois de todo o meu esforço e de muitas idas e vindas da atendente com o meu passaporte, quando chega afinal a hora de pagar e ela escreve num papel o valor, ponho a mão no bolso e, conforme vou estendendo as notas na portinha do guichê, me dou conta de que não tenho o suficiente. A platéia, que acompanha tudo de perto, pressente na minha expressão o momento da queda. Uma mulher diz baixinho, consigo mesma: “Não vai dar, não vai dar!...” (alguma coisa que, para mim, soa como “Malaya, malaya...”). Sinto que estão do meu lado. A atendente também espera, parece torcer para que eu tire mais uma nota do bolso. Ela se levanta e reconta as notas, inconformada, como se quisesse multiplicá-las. Um homem aponta para um papel colado no vidro e arranha: “No credit card”. Sou obrigado a me resignar aos fatos e dizer que o dinheiro acabou. Olho para trás, para a fila, e pergunto se alguém fala inglês. As pessoas balançam a cabeça. Uma moça se adianta. Peço que ela explique à atendente que vou tirar dinheiro no banco e volto para pagar a diferença, mas antes de eu poder completar a frase, ela tira uma nota da bolsa e completa o preço da passagem para mim.

12 Comentários:

Blogger De Kelby disse...

Sem essa, Bernardo, de ficar um mês sem falar. Aliás, podes até ficar um mês sem falar por aí, mas não sem escrever aqui. Não vai querer privar seus leitores dessa exercício de humildade que é um grande escritor escrever um blog. Verás que não é nada tão terrível assim. Essa sua ojerija demoniza demais a ferramenta (blog), quando o que é condenável é a má utilização que fazem dela. Bem, farei a minha parte... Virei todos os dias aqui ler o que você escreve, ansioso. Sou seu leitor. Se vou me decepcionar ou não aí é contigo. Não faça como o Ruffato. O Bettega é outro que parou no meio do caminho... Esses escritores! Depois reclamam que não existem leitores e que a literatura está moribunda... Um abraço!

6 de setembro de 2007 12:11  
Blogger Ivana Arruda Leite disse...

Pois eu diria que você é um blogueiro nato. Adorei. Adelante. Um beijo, Ivana (e não se assuste com o despudor, blog é isso mesmo)

6 de setembro de 2007 12:30  
Blogger Patrícia. disse...

I do not hope (you) turn again. to be quiet.

7 de setembro de 2007 16:13  
Blogger Ricardo disse...

Ih! Bernardo. Eu imagino como deve ser complicado. Passei um tempo em Berlim e mesmo com todos falando inglês eu me senti meio fora dos eixos. Foi meio complicado. Prefiro ficar em países onde se fala inglês, francês, espanhol e, claro, português.
Mas espero que você possa superar este problema.
Não se preocupe com o "Blog". Você já deu conta no primeiro post.
Não vai ter problema nenhum.
Mande notícias de Moscou.
Abraços

8 de setembro de 2007 13:44  
Blogger Lais disse...

Vish, Bernardo...
o jeito de você conseguir falar em inglês enquanto está aí é escrevendo no blog.
Portanto, continue!
Além disso, blogs são uma delícia!
Acredito que com o tempo você vai acostumar.
Acredito também que você vai gostar TANTO, que vai continuar a escrever, mesmo depois de ter voltado.

bjjsss e boa sorte!

Laís!

8 de setembro de 2007 15:01  
Blogger Lais disse...

opaaa...
confundi...
quando disse inglês, queria dizer portugues...

foi mal...

8 de setembro de 2007 19:49  
Blogger wilma disse...

legal

recuperei um pouco a fé na humanidade
hehe

20 de setembro de 2007 13:03  
Blogger Daniella3000 disse...

Bom, confesso que te conheci hj. Estou em Lisboa realizando um estágio doutoral (sandwich), quando o cara que me aluga um quarto me questiona: conheces este autor... (estou sem interrogação no notebook...As reticências poderão ser lidas como tal, só é querer!)E eu, muito envergonhadamente, depois de constatar que era um autor brasileiro, respondi que não! Ele me mostrara o "Nove Noites", algo como uma história sobre um antropólogo que se suicidara, etc... Eu, humildemente, tomei o livro e fui dar uma bisbilhotada na net. E aqui estou, fazendo algo para mim tão estranho quanto o é para você escrever um blog. Aqui estou deixando (com o sentimento de que pareço ridícula, afinal, será mesmo que este cara irá ler este recado... ou, que coisa idiota, este pequeno texto que digitas não tem para o tal Bernardo a menor importância!). Talvez tu tenhas te sentido assim ao escrever este blog - é o primeiro que leio, mas já ouvi falar que a gente também pode utilizá-los em pesquisas e tal...)... - um tanto quanto patético. Mas, digo-lhe que li só uma parte, aquela em que tu te encontras na frente do guichê, sem falar uma palavra em russo e sem ter o dinheiro de que necessitavas... E agora eu já sei porque estou aqui: mesmo estando num país em que posso me comunicar em português, muitas vezes sinto-me sufocada, com vontade de falar, todavia, sem um interlocutor. É horrível. Pensava que conseguiria viver só, mas, preciso do outro pra falar, pra comentar, pra compartilhar e o blog tem esta espécie de função (não gosto desta palavra, mas... até que ela cabe bem aqui). Bom, é isso... Tenho muita, muita coisa pra ler (sou doutoranda em Antropologia), mas vou encaixar teu livro por entre as leituras mais áridas, quem sabe se assim não tornas o meu ócio mais criativo... Literatura e ciência são um belo par apaixonado e apaixonante. Bom... É isso! Um abraço e até a próxima!

13 de dezembro de 2007 05:07  
Blogger Victor disse...

não encontrei outra maneira de entrar em contato para me expressar a respeito da sua obra: "nove noites"; não vou dizer que procurei outras formas, pois não e verdade. Bem esse livro e ridiculo, não desprezo seu trabalho de pesquisas e suas experiencias com os indios, ou ate mesmo as historias contadas de sua infancia, mas desprezo com o maior dos desprezos sua preposições sobre a more de Buell Quain, tentando infrutiferamente encontrar um misterio, uma veia de interesse, creio eu que para se salvar depois de haver decidido a escrever sobre esse caso e ver que não era tão interessante, chamativo e misterioso como esperava; a leitura e dolorosa e tediosa, e em certos aspectos você deixa bem claro a suposição do obvio, oq so denigri ainda mais a obra e a sua figura de escritor, vi que ganhou um premio por este livro, fiquei surpreso, mesmo sendo em Portugual....

Melhor sorte nos proximos


Victor Alexandre
Ps: caso sinta a necessidade de retratação: victor_ldn@hotmail.com

26 de outubro de 2008 05:35  
Blogger MBE disse...

Bernardo,
Estou há um tempão procurando seu email, ou telefone! Vamos fazer uma festa para comemorar os nossos 30 anos de CRJ em junho! E vc não pode faltar! Me escreva - sandraburle@gmail.com,
Muitas saudades de vc, comprei seu livro Magnólia - o Sérgio Flemming me recomendou! Adorei!
Bjs
Sandra

18 de maio de 2009 10:25  
Blogger Eliana Capiotto disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

9 de abril de 2013 12:08  
Blogger Eliana Capiotto disse...

Olá Bernardo. Sou estudante do curso de Tradutor e Intérprete da UNINOVE e estamos fazendo um conjunto de trabalho em relação aos seus livros e à sua vida como escritor, jornalista e tradutor. Infelizmente não conseguimos material sobre as suas experiências como tradutor, apesar de você ter traduzido vários livros. Sei que aqui não é o lugar certo para lhe fazer este pedido, mas foi a única forma que encontrei de falar com você. Gostaria de saber se você poderia me falar um pouco das suas experiências como tradutor.Ficaria imensamente grata se você pudesse dispor um pouquinho do seu tempo para me passar um pouco das suas experiências nesse ramo. Meu e-mail é: eliana.capiotto@gmail.com. Agradeço desde já. Eliana

9 de abril de 2013 12:10  

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