amores expresos

sábado, 29 de setembro de 2007

Os bons sentimentos





“A Gaivota”, de Tchécov, foi vaiada na estréia, em São Petersburgo, no teatro Alexandrinski. Só por fetichismo (mais para ver o teatro do que a peça), vou ao Alexandrinski assistir a uma montagem penosa do “Quarteto”, de Heiner Muller, por uma companhia francesa. Para compensar, dois dias depois, assisto à “Peça sem Nome” (“Platonov”), de Tchécov, encenada por Lev Dodin, no teatro Mali. A montagem tem dez anos e foi integrada ao repertório do teatro. Tem um ar ligeiramente ultrapassado, que garante metade do charme – e da nostalgia. O cenário é uma casa de campo às margens de um rio. Os atores interpretam boa parte do texto molhados – ou se enxugando. Volta e meia, alguém se joga nas águas de uma piscina que representa o rio entre o palco e a platéia. Dodin é um mestre da graça e da competência. O Mali é o único representante russo entre as companhias que formam o prestigioso Teatro da Europa. Pode não ser a coisa mais inovadora do mundo, mas é bem feito e celebra uma alegria e um gosto pelo teatro que faz a platéia voltar à infância. E isso desde os atores até a velhinha que vende programas na entrada, com uma dedicação militante, e que me pergunta qual é o meu lugar na platéia quando lhe peço um programa em inglês (que, infelizmente, ela não tem). Devo ser o único espectador estrangeiro. Logo antes de começar a peça, ela entra na sala e vem até o meu lugar para dizer que posso ficar sossegado: vão pôr legendas em inglês para mim.



Começo a me dar conta de outra São Petersburgo. Em parte, graças ao Maxim, que é um sujeito muito peculiar. Passei quase um mês me debatendo contra os clichês turísticos (e tentando evitar o que eu não poderia deixar de ser) numa cidade onde as atrações turísticas se sucedem ao infinito, com intervalos de menos de cinqüenta metros entre uma e outra. Não queria a beleza evidente das fachadas nem a instituição da cultura independente (DJs, rock alternativo, música eletrônica) que, pelo que dizem, já foi mais independente e menos institucional. Como quase tudo no mundo, aqui também, o que num momento foi resistência acabou tendo de se render ao comércio. O Maxim não. Estudou cinema, em Moscou, com Marlen Huciev, cineasta soviético contemporâneo de Tarkovski. Uma noite, no hotel, em Moscou, liguei a TV e dei com a cena de um filme em preto e branco, dos anos 60, em que um grupo de jovens (Tarkovski entre eles) falava alto, recitava poemas, dançava, e passava do riso ao choro sem tomar fôlego, como parece ser costume entre os russos, bipolares intempestivos. Como não falo russo, não entendi bulhufas do que diziam. Mas tampouco consegui desgrudar os olhos da TV. A cena era estonteante. Era incrível que aquele filme tivesse sido feito na União Soviética dos anos 60. A influência da nouvelle vague era clara. Mas havia outra coisa, uma melancolia, um peso, um desencanto, que os filmes da nouvelle vague não têm. Só ontem, o Maxim me esclareceu que a cena que eu vi é de um filme célebre do Huciev. O Maxim é um cara sabido e estranho. Mora num apartamento não muito longe de onde os turistas e os fãs de “Crime e Castigo” vão fotografar “o prédio onde morou Raskolnikov”. O próprio Maxim é uma espécie de Raskolnikov tranqüilo, se isso for possível. É magro, usa barba e rabo-de-cavalo. Fez um documentário que reúne personagens reais de São Petersburgo, história pessoal e animação. Há alguns anos, o filme foi exibido no festival de Berlim. A única cópia que ele tem não é boa e está sem legendas. Nessas condições, prefere que eu não a veja. Publicou poemas em edições independentes. Já não publica. Me mostra o livro de um poeta de Petersburgo, que se matou jovem, nos anos 70, Leonid Aronzon, e que ele admira. Desde agosto, o Maxim trabalha na agência central do correio, por onde passa toda a correspondência da cidade. Fazendo o quê? “Trabalho físico.” Por quê? “As cartas me interessam. O correio me interessa. Queria ver como era. Talvez venha a fazer um filme. Enquanto isso, aproveito para ganhar algum dinheiro.” Marcamos um encontro no saguão art nouveau, coberto por uma imensa clarabóia, da agência central do correio. Quando estudava cinema em Moscou, o Maxim sentiu falta de um curso de interpretação e dança e foi parar no teatro onde uma amiga comum, Marina, é atriz. Daí o contato. Ele me convida para tomar café no apartamento dele. Me mostra um vídeo no qual dança sozinho, diante de uma pequena platéia. É a dança mais esquisita do mundo, concebida por ele durante o curso em Moscou. O apartamento é típico de velhos intelectuais sob o regime soviético. Como se tivesse sido esquecido no tempo. Lembra a casa de Anna Akhmátova, que hoje é museu, só que mais desarrumado. É sombrio. O papel de parede é sujo e velho. O divã na sala está coberto com um tapete vermelho. Há um piano maltratado, uma estante desengonçada, livros espalhados, alguns retratos, desenhos descolando das paredes, cortinas velhas de renda nas janelas. Os avós deixaram o apartamento para ele. Conversamos sobre cinema e literatura. Maxim tem um compromisso, mas insiste em me acompanhar até em casa. No caminho, pergunta o que é que eu fiquei fazendo durante um mês sem conhecer ninguém em São Petersburgo. “Andando.” Ele só falta chorar. Três horas depois, me liga para dar o telefone da amiga de uma amiga, que estudou português na universidade e que eu não posso deixar de conhecer.

3 Comentários:

Blogger Gabriela Linck disse...

Percebo nesse post o ponto onde a cultura brasileira e a russa se unem: o sentimentalismo.

Ainda passam novelas brasileiras por aí?

29 de outubro de 2007 13:08  
Blogger maria alice mansur disse...

e então, como é o português da russa?
Sou amiga de Sérgio Brando que diz ser seu fã primeiro. Quero se a segunda. Acabei de ler Nove Noites e fiquei maravilhada. Parabéns por ser tão genial. A estória me pegou pelo pé e a cada página uma surpresa. Sérgio diz que Nove Noites é um poema sinfônico. A narração a três vozes é impecável, e fantástico é você ter delineado tão bem, com os fatos reais, as cartas e a ficção propriamente dita. Adoraria conversar mais com você. Meu e-mail é marialicemansur@yahoo.com.br

4 de novembro de 2007 10:17  
Blogger maria alice mansur disse...

é Sergio branco- digitei errado.

4 de novembro de 2007 10:17  

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